De um olhar ligeiro à vontade de permanecer indefinidamente. Um cara pequeno, de olhos brilhantes e barba escura. Outro de braços e pernas desajeitadamente longas e um óculos que lhe piorava o rosto adolescente que sofria com a explosão hormonal.
O quatro olhos, fã de livros de bancas de revista, acreditou-se apaixonado pelo baixinho logo na primeira semana. Tão intenso quanto desajeitado, imaginava o futuro com o rapaz acabara de conhecer. Sonhava em acabar com toda aquela misantropia que habitava o amado.
O jovem de barba escura só estava feliz em ter um novo amigo, mesmo que de pernas e braços maiores do que deveriam. Sentia-se até um pouco intimidado com o outro adolescente expansivo que falava a cada dia mais e abria aquele longo abraço para todos que passavam.
Mesmo que não pareça, os dois tinham muito em comum. Partilhavam de muitas ideias, tinham gostos parecidos. O pequeno barbudinho precisava de alguém que se importasse, o desajeitado atencioso ansiava em suprir essa necessidade. Tentava de todas as maneiras ficar mais próximo do garoto tímido, esperando viver um desses romances de literatura barata.
O menino de olhos brilhantes iluminava um caminho perigoso que o perna longa percorria a passos largos. Cada vez mais apaixonado, sentia-se mais distante.
Felizmente, por trás daquelas lentes, morava um olhar decidido a fazer dar certo. Pegou o pequeno rapaz pelo braço e o levou para longe dos outros. Declarou-se, como havia feito a personagem daquele último livro de capa mole e mal feita que carregava em sua mochila. Decidiu que, se fosse para seguir pela estrada iluminada pelos olhos verdes e brilhantes, que fosse da forma mais certa. Por um momento, a barba inquietou-se no rosto do adolescente, que abria cada vez mais os olhos assustados com a franqueza do franzino expansivo.
O menino, avesso a abraços, deixou-se envolver pelos longos braços que o abraçavam. Sentiu cada dedo em suas costas, enquanto o adolescente espinhento fazia o mesmo. Pela primeira vez, viu-se encantando por outro rapaz. Era estranho e, ao mesmo tempo, fantástico.
E assim começou o amor do grande e expansivo desajeitado, com o pequeno e tímido barbudinho. Eles que nada pareciam e poucos motivos tinham para ficarem juntos, vivem uma boa vida agora. Não posso lhes informar até quando, mas espero que por mais uma ou duas vidas.
sexta-feira, 28 de março de 2014
domingo, 16 de março de 2014
Acabou?
A incerteza do fim bate mais forte do
que uma traição flagrada ou que as palavras rudes que acabam com
tudo. Eu realmente não sei se devo te chamar. O pequeno Einstein
perdeu as respostas.
Nunca soubemos nos definir como amigos
ou namorados. Achávamos que deveríamos tentar deixar as coisas
correrem tranquilamente. Nem isso conseguimos. Dois apressados, que
querem se amar mas não fazem nem ideia de como começar. Querendo
cruzar um estado inteiro a pé, só pra poder ter um abraço,
encostando o narizinho gelado no pescoço do outro, só pra sentir o
cheiro mais de perto e ter certeza de que as coisas são reais.
Talvez tenha faltado isso. Não a
coragem literal de se atravessar um estado a pé ou a efetiva troca
de carinhos, mas alguma coisa mais louca, uma forma de mostrar que o
amor existe, que há motivos para acreditar e esperar o nosso dia
perfeito. Como não aconteceu, justificável que tenhamos errado (ou
até acertado, de outro ponto de vista) em outros braços.
Eu realmente não sei se acabou, mas
sei que não me sinto mais tão confortável pra falar. Quando tento
dizer que te amo, as palavras só se recusam a sair. Batem na ponta
da língua e voltam, trazendo consigo uma tristeza doída de verdade.
Talvez estivéssemos tentando descobrir até que ponto a falta que eu
sinto das nossas conversas poderia ser suficiente para que nos
mantivéssemos juntos. Tenho medo de termos descoberto agora.
Não devemos deixar de ficar com outras
pessoas por estarmos presos um ao outro. A fidelidade não tem nada a
ver com isso. Nesse tempo, não quis nem chegar perto de outra boca
porque nem sequer consigo cogitar essa ideia. Eu te tenho, ou tinha,
como único pra mim. Nenhum outro braço poderia me segurar senão o
teu. Qualquer outro carinho parecia fraco perto do que eu estava
esperando ter de ti.
Não tentando descobrir os motivos que
nos trouxeram aqui, mas as expectativas podem ter nos destruído.
Esperava mesmo, nos meus doces sonhos românticos, uma casinha no
campo em que dividiríamos com dois cachorros e um filho. Na minha
pouca idade, achava ter descoberto o grande amor de toda a minha
vida.
Estou desiludido, de verdade. Da mesma
maneira que uma criança deixa de ter o pai como herói, eu talvez
tenha deixado de te amar. Ou, talvez, seja só a tristeza e a
decepção ocupando o teu espaço.
terça-feira, 4 de março de 2014
Idioterne
Não sou bom em lidar com as pessoas.
Sou agitado, frágil e por vezes inconveniente. Se gosto de verdade,
ai é que as coisas vão mal. Perco as palavras, falo o que não
devo, enfio os pés pelas mãos e não consigo parar de tentar
conversar.
Nasci meio errado. Amo fácil, mas nem
sei como fazer isso. Nunca sei o que deve ser dito, identificar
sinais pra mim é tão fácil quanto tocar piano com os cotovelos,
não entendo a hora de começar e parar de falar. Não consigo nem
ordenar meu pensamento. Tento mostrar que posso ser inteligente, mas
erro feio.
Sou incapaz de saber o que tu sente,
sou envergonhado demais pra perguntar. Pode parecer besteira gostar
de alguém de quem nem se tem o toque. Na verdade, eu nem sei
explicar como isso aconteceu. Acho que se deve ao fato de eu me
apaixonar por palavras, ideias, pensamentos, desejos e pelo senso de
humor. Chego a passar o dia todo esperando a hora de te chamar, como
um cachorrinho que cumprimenta o dono na entrada de casa, trazendo
sempre um ossinho perdido ou o jornal de ontem.
Faço confusão, me iludo pensando
que, quem sabe, talvez, um dia, tu possa vir a gostar de mim da mesma
forma. Sei que somos amigos, mas também sei que posso te fazer bem
como um bom namorado. O cara que fica agarradinho em ti, assistindo
bons filmes pela noite. O chatinho que está tentando sempre te
surpreender, pra provocar um sorrisinho constrangido.
Afaga esse cachorrinho que te
cumprimenta hoje. Não briga pela velocidade descomunal em que ele
costuma latir ou por estar sempre confuso com o que acontece. Alguns
carinhos são o suficiente para que o jornal velho se transforme em
um bom filme do Lars von Trier para hoje a noite.
-C.G.
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