sexta-feira, 28 de março de 2014

O pequeno barbudinho e o pernas longas

 De um olhar ligeiro à vontade de permanecer indefinidamente. Um cara pequeno, de olhos brilhantes e barba escura. Outro de braços e pernas desajeitadamente longas e um óculos que lhe piorava o rosto adolescente que sofria com a explosão hormonal.

O quatro olhos, fã de livros de bancas de revista, acreditou-se apaixonado pelo baixinho logo na primeira semana. Tão intenso quanto desajeitado, imaginava o futuro com o rapaz acabara de conhecer. Sonhava em acabar com toda aquela misantropia que habitava o amado.

 O jovem de barba escura só estava feliz em ter um novo amigo, mesmo que de pernas e braços maiores do que deveriam. Sentia-se até um pouco intimidado com o outro adolescente expansivo que falava a cada dia mais e abria aquele longo abraço para todos que passavam.

 Mesmo que não pareça, os dois tinham muito em comum. Partilhavam de muitas ideias, tinham gostos parecidos. O pequeno barbudinho precisava de alguém que se importasse, o desajeitado atencioso ansiava em suprir essa necessidade. Tentava de todas as maneiras ficar mais próximo do garoto tímido, esperando viver um desses romances de literatura barata.

 O menino de olhos brilhantes iluminava um caminho perigoso que o perna longa percorria a passos largos. Cada vez mais apaixonado, sentia-se mais distante.

 Felizmente, por trás daquelas lentes, morava um olhar decidido a fazer dar certo. Pegou o pequeno rapaz pelo braço e o levou para longe dos outros. Declarou-se, como havia feito a personagem daquele último livro de capa mole e mal feita que carregava em sua mochila. Decidiu que, se fosse para seguir pela estrada iluminada pelos olhos verdes e brilhantes, que fosse da forma mais certa. Por um momento, a barba inquietou-se no rosto do adolescente, que abria cada vez mais os olhos assustados com a franqueza do franzino expansivo.

O menino, avesso a abraços, deixou-se envolver pelos longos braços que o abraçavam. Sentiu cada dedo em suas costas, enquanto o adolescente espinhento fazia o mesmo. Pela primeira vez, viu-se encantando por outro rapaz. Era estranho e, ao mesmo tempo, fantástico.

 E assim começou o amor do grande e expansivo desajeitado, com o pequeno e tímido barbudinho. Eles que nada pareciam e poucos motivos tinham para ficarem juntos, vivem uma boa vida agora. Não posso lhes informar até quando, mas espero que por mais uma ou duas vidas.

domingo, 16 de março de 2014

Acabou?

A incerteza do fim bate mais forte do que uma traição flagrada ou que as palavras rudes que acabam com tudo. Eu realmente não sei se devo te chamar. O pequeno Einstein perdeu as respostas.

Nunca soubemos nos definir como amigos ou namorados. Achávamos que deveríamos tentar deixar as coisas correrem tranquilamente. Nem isso conseguimos. Dois apressados, que querem se amar mas não fazem nem ideia de como começar. Querendo cruzar um estado inteiro a pé, só pra poder ter um abraço, encostando o narizinho gelado no pescoço do outro, só pra sentir o cheiro mais de perto e ter certeza de que as coisas são reais.

Talvez tenha faltado isso. Não a coragem literal de se atravessar um estado a pé ou a efetiva troca de carinhos, mas alguma coisa mais louca, uma forma de mostrar que o amor existe, que há motivos para acreditar e esperar o nosso dia perfeito. Como não aconteceu, justificável que tenhamos errado (ou até acertado, de outro ponto de vista) em outros braços.

Eu realmente não sei se acabou, mas sei que não me sinto mais tão confortável pra falar. Quando tento dizer que te amo, as palavras só se recusam a sair. Batem na ponta da língua e voltam, trazendo consigo uma tristeza doída de verdade. Talvez estivéssemos tentando descobrir até que ponto a falta que eu sinto das nossas conversas poderia ser suficiente para que nos mantivéssemos juntos. Tenho medo de termos descoberto agora.

Não devemos deixar de ficar com outras pessoas por estarmos presos um ao outro. A fidelidade não tem nada a ver com isso. Nesse tempo, não quis nem chegar perto de outra boca porque nem sequer consigo cogitar essa ideia. Eu te tenho, ou tinha, como único pra mim. Nenhum outro braço poderia me segurar senão o teu. Qualquer outro carinho parecia fraco perto do que eu estava esperando ter de ti.

Não tentando descobrir os motivos que nos trouxeram aqui, mas as expectativas podem ter nos destruído. Esperava mesmo, nos meus doces sonhos românticos, uma casinha no campo em que dividiríamos com dois cachorros e um filho. Na minha pouca idade, achava ter descoberto o grande amor de toda a minha vida.

Estou desiludido, de verdade. Da mesma maneira que uma criança deixa de ter o pai como herói, eu talvez tenha deixado de te amar. Ou, talvez, seja só a tristeza e a decepção ocupando o teu espaço.

terça-feira, 4 de março de 2014

Idioterne

Não sou bom em lidar com as pessoas. Sou agitado, frágil e por vezes inconveniente. Se gosto de verdade, ai é que as coisas vão mal. Perco as palavras, falo o que não devo, enfio os pés pelas mãos e não consigo parar de tentar conversar.

Nasci meio errado. Amo fácil, mas nem sei como fazer isso. Nunca sei o que deve ser dito, identificar sinais pra mim é tão fácil quanto tocar piano com os cotovelos, não entendo a hora de começar e parar de falar. Não consigo nem ordenar meu pensamento. Tento mostrar que posso ser inteligente, mas erro feio.

Sou incapaz de saber o que tu sente, sou envergonhado demais pra perguntar. Pode parecer besteira gostar de alguém de quem nem se tem o toque. Na verdade, eu nem sei explicar como isso aconteceu. Acho que se deve ao fato de eu me apaixonar por palavras, ideias, pensamentos, desejos e pelo senso de humor. Chego a passar o dia todo esperando a hora de te chamar, como um cachorrinho que cumprimenta o dono na entrada de casa, trazendo sempre um ossinho perdido ou o jornal de ontem.

Faço confusão, me iludo pensando que, quem sabe, talvez, um dia, tu possa vir a gostar de mim da mesma forma. Sei que somos amigos, mas também sei que posso te fazer bem como um bom namorado. O cara que fica agarradinho em ti, assistindo bons filmes pela noite. O chatinho que está tentando sempre te surpreender, pra provocar um sorrisinho constrangido.

Afaga esse cachorrinho que te cumprimenta hoje. Não briga pela velocidade descomunal em que ele costuma latir ou por estar sempre confuso com o que acontece. Alguns carinhos são o suficiente para que o jornal velho se transforme em um bom filme do Lars von Trier para hoje a noite. 

-C.G.