Não sou bom em lidar com as pessoas.
Sou agitado, frágil e por vezes inconveniente. Se gosto de verdade,
ai é que as coisas vão mal. Perco as palavras, falo o que não
devo, enfio os pés pelas mãos e não consigo parar de tentar
conversar.
Nasci meio errado. Amo fácil, mas nem
sei como fazer isso. Nunca sei o que deve ser dito, identificar
sinais pra mim é tão fácil quanto tocar piano com os cotovelos,
não entendo a hora de começar e parar de falar. Não consigo nem
ordenar meu pensamento. Tento mostrar que posso ser inteligente, mas
erro feio.
Sou incapaz de saber o que tu sente,
sou envergonhado demais pra perguntar. Pode parecer besteira gostar
de alguém de quem nem se tem o toque. Na verdade, eu nem sei
explicar como isso aconteceu. Acho que se deve ao fato de eu me
apaixonar por palavras, ideias, pensamentos, desejos e pelo senso de
humor. Chego a passar o dia todo esperando a hora de te chamar, como
um cachorrinho que cumprimenta o dono na entrada de casa, trazendo
sempre um ossinho perdido ou o jornal de ontem.
Faço confusão, me iludo pensando
que, quem sabe, talvez, um dia, tu possa vir a gostar de mim da mesma
forma. Sei que somos amigos, mas também sei que posso te fazer bem
como um bom namorado. O cara que fica agarradinho em ti, assistindo
bons filmes pela noite. O chatinho que está tentando sempre te
surpreender, pra provocar um sorrisinho constrangido.
Afaga esse cachorrinho que te
cumprimenta hoje. Não briga pela velocidade descomunal em que ele
costuma latir ou por estar sempre confuso com o que acontece. Alguns
carinhos são o suficiente para que o jornal velho se transforme em
um bom filme do Lars von Trier para hoje a noite.
-C.G.
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