domingo, 14 de dezembro de 2014

Daquele que não volta

 Não vale dizer que não existem palavras. Nem que foi sem querer. Foi muito bem pensado.

 Do que não chorava para não demonstrar fraqueza ao manteiga derretida. Do que tinha medo de amar ao que sofre por ter afastado o amor. Do que disse nunca mais ao que pede agora. Do que queria um tempo ao que não quer mais nenhum segundo.

 Os antigos afirmam, com razão, que não existe melhor óculos do que os com as lentes do tempo. Fui insensível, era eu. Não adianta negar. Desde que coloquei a cabeça no travesseiro, ele sussurra, torturando-me, uma simples palavra, com muito significado: príncipe.

 Nunca aceitaria a verdade de que, logo, eu faria o papel de arrependido. De que eu traria o rabo entre as patas. Eu, criança mimada, te acusei de imaturidade. Imaturo. Me atormenta a ideia de não te ter de volta.

 O tempo vai curar. Vai te trazer alguém que mereça o teu abraço, teu sorriso. Quanto ao travesseiro, guardará lágrimas por mais alguns dias, meses, anos. Um príncipe de verdade te espera, em qualquer uma dessas esquinas do tempo.

 Minha banda preferida diz que é sempre amor, mesmo que mude. Não sei se pra ti ainda é amor. Talvez carinho. Sei que estranho a tua ausência. Minha bússola, sempre desorientada, perdeu o seu norte. Não sei andar sem te dar a mão. Nunca vou ter uma boa noite de sono sem um dia inteiro dos teus sorrisos. As vezes só quero pensar que o nosso amor não quebrou, que é de encaixar.

Te amo, te estranho.

sábado, 6 de setembro de 2014

Morra

 Eu sinto a nossa falta, tenho vontade de correr para o passado. Eu nunca havia tido momentos tão bons, tão felizes. O futuro que nunca teremos, o presente que não conquistamos e todas as memórias do que nunca acontecerá.

 Não tivemos um lugar para chamar de nosso, não nos demos apelidos. Nenhuma frase marcante. Nada de momentos perfeitos com um love song ao fundo. Nem cheguei a arrumar o teu cabelo atrás da orelha, chegar perto da tua boca. Por que é tão difícil só te esquecer?

 Quem dera eu pudesse fingir que nunca te conheci. Não deveria ter sentado naquele sofá. trocado uma ideia. A bebida nos leva à coisas estúpidas, eu me levo à coisas estúpidas. Meu futuro é vago, incerto. Vivo na cautela de não me machucar, sem grandes objetivos. As luzes só enganam.

 A luz que cega me traz segundos de vida. Passo o tempo procurando algum bom motivo para estar aqui, não consigo pensar em nada. Penso em tudo o que perdi, nos poucos bons momentos e de como tudo foi arruinado. Não sei o que eu faço para destruir com cada pedaço positivo.

 Teu nome tá aqui, vivo. A felicidade cheira a passado.

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Para o furacão e o canto da boca

 Eu tenho medo de te afastar, me assusta a ideia de ter longe. Ainda que rápido, já quero ser parte da tua vida. Mesmo que ambos tenhamos problemas, posso suportar.

 Ninguém poderia prever que uma conversa despropositada de uma noite se transformariam em dias inteiros de sorrisos bobos. Faz um tempo que não sento para escrever, que não tenho vontade de expressar absolutamente nada. Me sentia emocionalmente morto, sempre me vi despreparado para encarar relacionamentos. As coisas mudaram com a tua chegada.

 Quero ser o teu primeiro pensamento pela manhã e o último nome ao dormir. Viver todos os clichês que esse mundo nos permitir. Meus sorrisos bobos serão pra sempre teus, desde que faça o mesmo. Abraço os teus problemas e as tuas qualidades, com muito amor. Me importo contigo, como  nunca me importei com qualquer outro. A ideia de te magoar me tortura, me faz querer chorar.

 Posso errar em alguns pontos, ser apressado ou descuidado. Peço paciência, sou novo. Sou errado. Sei que textos permeados de clichês não me farão amadurecer, mas garanto que o tempo ao teu lado vai ser repleto de conhecimento. Não vejo a hora de pegar a tua mão, de respirarmos bem perto um do outro. Lembrar de ti me provoca um riso imediato no canto da boca. Saber que talvez eu tenha te magoado, cria um furacão dentro de mim. Me importo, te quero.


domingo, 13 de julho de 2014

Ceifadores

 Ele nunca viu Dallas Buyers Club, não teve a oportunidade de ir nos shows que queria e nem saiu do país. Não deitou mais a cabeça no travesseiro para pescar o futuro que corria em sua cabeça. Deixou o notebook aberto na sua escrivaninha empoeirada.

 Saiu sem dar um longo tchau, sem saber que sua casa sentiria a saudade de tanta vida ali dentro. Desceu as escadas deslizando, com a mochila nas costas e um sorriso jovem de orelha a orelha, sapateando nos últimos dois degraus. O único tchau foi um grito para a mãe que estava na cozinha. Sentiu pela última vez o portão de sua casa correndo nos trilhos enferrujados.

 Dançou até a parada de ônibus com os fones no volume máximo, rindo para quem achava a cena engraçada. Subiu no coletivo, rumando ao centro da cidade, onde ele encontraria o grande homem da sua vida. Nada importava, nem a passagem estar cara ou ele ter que ir sem assento até o destino final, nada o desanimaria.

 Chegou ao centro da cidade, flutuando até o seu ponto de encontro. Deu um longo abraço logo que chegou ao local marcado. Sentiu que as pessoas já não sorriam para o seu jeito engraçado, mas que olhavam com certa desconfiança e até com asco. Perguntou se, quem sabe, não seria melhor procurar algum outro lugar para ir. Com o consentimento do outro, dirigiu-se à um bar que nunca chegou.

 Saindo do local marcado, decidiu que não haveria mal pegar o seu amado pela mão. Em plena luz do dia, em pleno centro, roubaram uma vida. Sentiu apenas a mão que o empurrava pelo ombro e o levava a morte certa, no parabrisas de uma van. Ouvia-se o correr apressado dos assassinos, o choro desesperado do namorado. Observava-se os olhares incrédulos. De nada adiantaria, o filme nunca seria assistido, os shows não teriam a sua presença e a Torre Eiffel esperaria para sempre. O notebook não vai ser fechado, com aquele texto que ficou em aberto. A mãe ficou sem o adeus apropriado do filho que viu nascer, que criou e que amou. A casa perdeu a sua juventude alegre. O jovem perdeu a sua vida.

sábado, 12 de julho de 2014

Orquestra de um maestro perdido

     O violino desafinado segue os compassos tortos do que passou. O martelo do piano bate fora de ordem. A flauta não está sendo apertada, por medo de sufocar a doce melodia. O maestro não tem nenhum controle do que está acontecendo. 

     A platéia desiste da orquestra a cada acorde desperdiçado. Estranho é assistir os instrumentos firmes e fortes, atropelando os seus erros. A melodia pré-definida não é respeitada, não tem graça. Os músicos sorriem com o descompasso, gargalham com os seus erros. Viram as costas para o público que os abandona, sua força não está nos aplausos, nunca precisaram disso. 

     O maestro é um adereço, sem serventia nenhuma além de adornar o espetáculo, o que é um grande erro. Os músicos fogem a qualquer convenção social. Amam os seus instrumentos, como qualquer outra orquestra. Dedilham, batem, sopram e teclam como todos os outros, sem entender onde estão errando. A platéia agora está vazia. Não precisam dela.

     Vemos o primeiro descontentamento no palco. O violinista cansa do seu desafinar, abandona quase que imperceptivelmente a cena. O pianista causa briga com a sua saída, mas a situação é controlada pelos outros músicos, ainda que menos confiantes. O flautista deixa um rombo enorme neste conjunto, com uma horrível discussão, enfraquecendo a felicidade e confiança do maestro. O maestro sem orquestra se sente sozinho, já não vê motivo para estar sozinho naquele grande teatro sem platéia ou espetáculo, leva a última esperança guardada no bolso de trás do seu grande traje. 

    A grande orquestra perdeu a sua sintonia, não soube tocar. Descobriram que a aventura de ir contra a melodia não era o suficiente para manter a união, talvez seja até o contrário. Lá no fundo o violinista, pianista, flautista e maestro sentem grande saudade, só não acham um bom motivo para voltarem a tocar. Quem sabe um dia percebam que a grande graça da música está na união dos sons, em seguir o maestro. Até mesmo aquela platéia que ouvia apenas barulhos, sente falta dos sons e da felicidade naquele grande teatro. 

sábado, 14 de junho de 2014

Para aquele que não tem nome

Vendo aqui de fora, somos perfeitos um para o outro. Tuas características caem tão bem nos meus desejos. Meu jeito perdido te faz rir. Teu ser meigo me alegra.

Eu sei que quero viver uns mil anos. E também sei que quero acordar em todos eles com um beijo teu. Quero que a tua voz, desafinada até para falar, me dê um “bom dia” todas as manhãs. Que eu precise sair dos teus braços nada atléticos ao abrir os olhos. Até que o teu chinelinho de pelúcia esteja juntinho do meu ao pé da nossa cama.

Prometo nem reclamar da roupa suja no chão do banheiro (até porque dificilmente eu perceberia). Deixa que eu faço a nossa comida, desde que não reclames que confundi o açúcar com o sal (mais uma vez). Lavo as roupas, só não me julgue por misturar as cores (e deixar de molho na água sanitária). Eu posso tentar organizar a casa, mas sabe como é, tenho aquele leve problema de esquecer onde escondo (esconder sim, porque eu não guardo) as coisas.

Até te sustentaria se eu não fosse viver da minha arte. Devo-te (figurada e literalmente) financeiramente, mas prometo compensar com versos fofos e uma boa comédia romântica na sexta-feira.

Mesmo que eu não feche com o teu par perfeito, ainda que eu não tenha nada além de mim para oferecer, apesar de eu não ser tanta coisa assim, sei que tu quer estar comigo. Traz a tua escova. Senta em uma cadeira para eu te cantar uma música brega. Deixa eu adivinhar qual é o idioma que te seduz. Permita que eu seja o melhor erro da tua vida.

sábado, 7 de junho de 2014

De tempos atrás

  Em alguns momentos, eu gosto de parar só para ficar te olhando. Teus olhos viajando pelas páginas, os dedos grandes demais folheando o livro com cuidado, os olhos sempre atentos, como quem espera ansiosamente pelas folhas seguintes.

  Tua fala me traz coisas boas. O som da tua voz é doce e, ainda assim, desperta sentimentos nada católicos. Não quero te ouvir cantar só em um palco, mas também aqui, ao pé do meu ouvido. Quero sentir a minha alma vibrar com a tua garganta e meu coração oscilar com as tuas trocas de tom.

  Na efemeridade do meu querer, tu é quem mais dura. Por alguns anos sonho com o teu rosto, acordo pensando ser o dia que terei teu beijo, entro no prédio com os olhos rastreadores que buscam o teu sorriso. Sei que algum dia vou ter a segurança dos teus braços e a felicidade da tua boca.

  Dentre tantas coisas, o que eu realmente quero dizer é que te amo. Amo, não só adoro. Sei que só vou ter a felicidade plena quando me olhares de outra forma e me segurares de outro jeito. Vou ser o motivo desse sorriso.