Ele nunca viu Dallas Buyers Club, não teve a oportunidade de ir nos shows que queria e nem saiu do país. Não deitou mais a cabeça no travesseiro para pescar o futuro que corria em sua cabeça. Deixou o notebook aberto na sua escrivaninha empoeirada.
Saiu sem dar um longo tchau, sem saber que sua casa sentiria a saudade de tanta vida ali dentro. Desceu as escadas deslizando, com a mochila nas costas e um sorriso jovem de orelha a orelha, sapateando nos últimos dois degraus. O único tchau foi um grito para a mãe que estava na cozinha. Sentiu pela última vez o portão de sua casa correndo nos trilhos enferrujados.
Dançou até a parada de ônibus com os fones no volume máximo, rindo para quem achava a cena engraçada. Subiu no coletivo, rumando ao centro da cidade, onde ele encontraria o grande homem da sua vida. Nada importava, nem a passagem estar cara ou ele ter que ir sem assento até o destino final, nada o desanimaria.
Chegou ao centro da cidade, flutuando até o seu ponto de encontro. Deu um longo abraço logo que chegou ao local marcado. Sentiu que as pessoas já não sorriam para o seu jeito engraçado, mas que olhavam com certa desconfiança e até com asco. Perguntou se, quem sabe, não seria melhor procurar algum outro lugar para ir. Com o consentimento do outro, dirigiu-se à um bar que nunca chegou.
Saindo do local marcado, decidiu que não haveria mal pegar o seu amado pela mão. Em plena luz do dia, em pleno centro, roubaram uma vida. Sentiu apenas a mão que o empurrava pelo ombro e o levava a morte certa, no parabrisas de uma van. Ouvia-se o correr apressado dos assassinos, o choro desesperado do namorado. Observava-se os olhares incrédulos. De nada adiantaria, o filme nunca seria assistido, os shows não teriam a sua presença e a Torre Eiffel esperaria para sempre. O notebook não vai ser fechado, com aquele texto que ficou em aberto. A mãe ficou sem o adeus apropriado do filho que viu nascer, que criou e que amou. A casa perdeu a sua juventude alegre. O jovem perdeu a sua vida.
domingo, 13 de julho de 2014
sábado, 12 de julho de 2014
Orquestra de um maestro perdido
O violino desafinado segue os compassos tortos do que passou. O martelo do piano bate fora de ordem. A flauta não está sendo apertada, por medo de sufocar a doce melodia. O maestro não tem nenhum controle do que está acontecendo.
A platéia desiste da orquestra a cada acorde desperdiçado. Estranho é assistir os instrumentos firmes e fortes, atropelando os seus erros. A melodia pré-definida não é respeitada, não tem graça. Os músicos sorriem com o descompasso, gargalham com os seus erros. Viram as costas para o público que os abandona, sua força não está nos aplausos, nunca precisaram disso.
O maestro é um adereço, sem serventia nenhuma além de adornar o espetáculo, o que é um grande erro. Os músicos fogem a qualquer convenção social. Amam os seus instrumentos, como qualquer outra orquestra. Dedilham, batem, sopram e teclam como todos os outros, sem entender onde estão errando. A platéia agora está vazia. Não precisam dela.
Vemos o primeiro descontentamento no palco. O violinista cansa do seu desafinar, abandona quase que imperceptivelmente a cena. O pianista causa briga com a sua saída, mas a situação é controlada pelos outros músicos, ainda que menos confiantes. O flautista deixa um rombo enorme neste conjunto, com uma horrível discussão, enfraquecendo a felicidade e confiança do maestro. O maestro sem orquestra se sente sozinho, já não vê motivo para estar sozinho naquele grande teatro sem platéia ou espetáculo, leva a última esperança guardada no bolso de trás do seu grande traje.
A grande orquestra perdeu a sua sintonia, não soube tocar. Descobriram que a aventura de ir contra a melodia não era o suficiente para manter a união, talvez seja até o contrário. Lá no fundo o violinista, pianista, flautista e maestro sentem grande saudade, só não acham um bom motivo para voltarem a tocar. Quem sabe um dia percebam que a grande graça da música está na união dos sons, em seguir o maestro. Até mesmo aquela platéia que ouvia apenas barulhos, sente falta dos sons e da felicidade naquele grande teatro.
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