Ele nunca viu Dallas Buyers Club, não teve a oportunidade de ir nos shows que queria e nem saiu do país. Não deitou mais a cabeça no travesseiro para pescar o futuro que corria em sua cabeça. Deixou o notebook aberto na sua escrivaninha empoeirada.
Saiu sem dar um longo tchau, sem saber que sua casa sentiria a saudade de tanta vida ali dentro. Desceu as escadas deslizando, com a mochila nas costas e um sorriso jovem de orelha a orelha, sapateando nos últimos dois degraus. O único tchau foi um grito para a mãe que estava na cozinha. Sentiu pela última vez o portão de sua casa correndo nos trilhos enferrujados.
Dançou até a parada de ônibus com os fones no volume máximo, rindo para quem achava a cena engraçada. Subiu no coletivo, rumando ao centro da cidade, onde ele encontraria o grande homem da sua vida. Nada importava, nem a passagem estar cara ou ele ter que ir sem assento até o destino final, nada o desanimaria.
Chegou ao centro da cidade, flutuando até o seu ponto de encontro. Deu um longo abraço logo que chegou ao local marcado. Sentiu que as pessoas já não sorriam para o seu jeito engraçado, mas que olhavam com certa desconfiança e até com asco. Perguntou se, quem sabe, não seria melhor procurar algum outro lugar para ir. Com o consentimento do outro, dirigiu-se à um bar que nunca chegou.
Saindo do local marcado, decidiu que não haveria mal pegar o seu amado pela mão. Em plena luz do dia, em pleno centro, roubaram uma vida. Sentiu apenas a mão que o empurrava pelo ombro e o levava a morte certa, no parabrisas de uma van. Ouvia-se o correr apressado dos assassinos, o choro desesperado do namorado. Observava-se os olhares incrédulos. De nada adiantaria, o filme nunca seria assistido, os shows não teriam a sua presença e a Torre Eiffel esperaria para sempre. O notebook não vai ser fechado, com aquele texto que ficou em aberto. A mãe ficou sem o adeus apropriado do filho que viu nascer, que criou e que amou. A casa perdeu a sua juventude alegre. O jovem perdeu a sua vida.
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