sábado, 12 de julho de 2014

Orquestra de um maestro perdido

     O violino desafinado segue os compassos tortos do que passou. O martelo do piano bate fora de ordem. A flauta não está sendo apertada, por medo de sufocar a doce melodia. O maestro não tem nenhum controle do que está acontecendo. 

     A platéia desiste da orquestra a cada acorde desperdiçado. Estranho é assistir os instrumentos firmes e fortes, atropelando os seus erros. A melodia pré-definida não é respeitada, não tem graça. Os músicos sorriem com o descompasso, gargalham com os seus erros. Viram as costas para o público que os abandona, sua força não está nos aplausos, nunca precisaram disso. 

     O maestro é um adereço, sem serventia nenhuma além de adornar o espetáculo, o que é um grande erro. Os músicos fogem a qualquer convenção social. Amam os seus instrumentos, como qualquer outra orquestra. Dedilham, batem, sopram e teclam como todos os outros, sem entender onde estão errando. A platéia agora está vazia. Não precisam dela.

     Vemos o primeiro descontentamento no palco. O violinista cansa do seu desafinar, abandona quase que imperceptivelmente a cena. O pianista causa briga com a sua saída, mas a situação é controlada pelos outros músicos, ainda que menos confiantes. O flautista deixa um rombo enorme neste conjunto, com uma horrível discussão, enfraquecendo a felicidade e confiança do maestro. O maestro sem orquestra se sente sozinho, já não vê motivo para estar sozinho naquele grande teatro sem platéia ou espetáculo, leva a última esperança guardada no bolso de trás do seu grande traje. 

    A grande orquestra perdeu a sua sintonia, não soube tocar. Descobriram que a aventura de ir contra a melodia não era o suficiente para manter a união, talvez seja até o contrário. Lá no fundo o violinista, pianista, flautista e maestro sentem grande saudade, só não acham um bom motivo para voltarem a tocar. Quem sabe um dia percebam que a grande graça da música está na união dos sons, em seguir o maestro. Até mesmo aquela platéia que ouvia apenas barulhos, sente falta dos sons e da felicidade naquele grande teatro. 

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